dia cinza.

todos os olhos se curvam a essa imagem
que pinto, vermelha, em meus sonhos
as luzes que te rodeiam e te inúndão
são como grossos braços a te cercar

todos os gostos que a tua boca tocam
e todos os outros seres divinos
que, por ventura, com sorte, fogem
do que é conseguir te alcançar

sinos de praças tocam e se esgoelam
e eu cá, da janela, posso observar
como são tão tristes todas as vielas
e todos os que estão a te espreitar

como adorável sopro de miséria
algo que nos deixa tontos ao notar
fogem de minhas mãos, tuas mãos, como vieram
somem da minha vista quase num piscar

frasco de mazelas guardam as artérias
desse coração, pobre, a tirintar
quantas outras tardes sou a tua ceia
e quantos outros dias vais ignorar

este forte sobro de sua piedade
como um deus pagão que põe-se a orar
corto as minhas tardes fosco de saudade
e louvo à qualquer santo para me salvar

juro toda angustia, finjo castidade
e todos os meus dias ponho-me a deitar
sobre o travesseiro que guarda a saudade
e o cheiro da doença a me alimentar

gosto quando o choro soa verdadeiro
esse som aguro e seco, sem rezar
joga para fora todo o desespero
e curva-se a mentira que é te esperar

nunca quis um dia ser este sombreiro
que com a peneira tapa o meu pesar
torço pra que a morte, sorrateira e certa
venha com meus sonhos me remediar

dessa vida atoa já me fiz adulto
pronto pro destino que se revelou
desde aquele dia em que me deixaste
e se foi minha vida com o teu amor.

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