cotidiano

Peão lançado contra o chão
Roda de menino
Flor do mato, cerejeira
Sol a pino, coceira

Terra contra todos os dedos
Sujos, todos contra o vento
São as mãos tocando o alto
E o pé tão longe do asfalto

Suor na testa, vermelhinho
O cansaço da infância fervente
Cabelos molhados, calor genuíno
Goma de chiclete entre os dentes

Corre, foge, se esconde
Não vai ter jeito
Grita a mãe lá no portão:
“Janta tá pronta, vem tomar banho!”
E no céu se põe escuridão

Esfrega os olhos, o cansaço
O sono chegou faceiro
Estica as pernas sobre a cama
E sonha em ser forasteiro

A mãe, de novo, vem e me sacode
“Vâmo, acabou a mordomia!”
Hora de acordar, escovar os dentes
“Café está quente na pia!”

Bota o uniforme, pega a mochila
Buzina do amigo, é a carona…
Corre pra escolha, esqueceu um livro
Xi, vai levar uma bronca…

Tem tabuada, do 0 ao 10
Melhor não colar nessa prova
O que eu diria se a matemática
Fosse um jogo de bola?

Seria mais fácil então devorar
Os livros ao invés do almoço
Os anos passam e logo mais
Esse menino é um moço

Que guarda a bola e o seu peão
No canto de alguma caixa
Levanta cedo pra ir ao trabalho
E o sapato não encaixa

Com dor nos dedos chega faminto
“Mãe, cadê minha janta?”
Não quer mais bola, só pensa em vinho
E na secretaria gostosa…

Se vê distinto em sua gravata
E seu carrão importado
Sem perceber que o que ele era
Não sobrou nem um fiapo

Tem seu dinheiro e agora é noivo
“Meu Deus, quanta agonia!”
Vai se casar,  ter um bebê
E sua irmã vai ser tia

Olha pros lados, se vê tão preso
“Que foi que eu fiz de mim?”
Onde é o começo que deu nesse poço
Que parece não ter mais fim?

Passam-se os anos, a mãe se foi
Um dia tão triste nasceu
Olha no espelho e se estranha
“Nunca fui tão pouco eu!”

Cabelos caem e as rugas nascem
Seu filho já está na escola
A sua esposa antes formosa
Se tornou uma mulher grossa…

Todos os dias, sobre o travesseiro
O menino queima os miolos
Um homem cheio de seus conselhos
E de sua testa brilhosa

Vai falecendo, dia após dia
Um testamento no armário
Diz que seu carro ficou pro filho
E pra sua esposa, o salário

Não vê propósito, nem acredita
No que ele mesmo virou
Esse é o fim de toda a sua vida
Parece até que voou…

No leito a morte agora o espreita
O velho corpo padece
Fecha os olhos e faz a reza
Rangendo os restos dos dentes

Sem muita força, nem alegria
Pede pra Deus o levar
Como é tão triste lembrar da vida
Depois de vê-la passar.

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