31.12

é quase ano novo
aos poucos todas luzes se ascendem
as ruas estão vazias,
assim como eu.

estou sozinha em casa
escuto o barulho do ventilador
girando de canto à canto
sem trazer nenhum frescor

fogos de artifício começam a voar
barulhos estralados lá fora
as janelas absorvem o clarão
e meu coração é uma prece de saudade

ouço o ruído dos vizinhos
famílias reunias em todos os lugares
assim como a minha, longe
e penso nas vantagens de estar aqui

transpor um ano para outro
uma simbologia perversa
essa esperança de que tudo mude
quando amanhã será mais do mesmo.

então eu finjo ter sono
visto minha melhor roupa de dormir
no computador tocam minhas músicas favoritas
e bebo para parecer festa

olho para o teto firmemente
como se um portal pudesse me levar daqui
e com ele as minhas dores
que o ano novo não será capaz de apagar

alguns carros buzinam lá fora
meu cachorro se assusta e acorda
volta a deitar do meu lado
e tudo é como é.

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sobre o novo lar.

sons, motos e carros
motores engolem o ar
pontes, passagens, vielas
feitos pro dia acabar

atravesso a rua correndo
com medo, o que virá?
um ônibus quase me atravessa
um homem me ajuda a recuar…

nos fones são as mesmas músicas
esquinas e gente a rodar
roendo as unhas e pensando:
como é bor viver nesse lar.

gritos e pessoas fugindo
correndo para logo chegar
gastando as solas dos sapatos
cansando as pernas e o pensar

chego em casa e abro as janelas
e contemplo o longo dia acabar
aqueço um chá e ascendo uma vela
pra amanhã outro dia chegar.

cia.

gosto de laranja lima
sorriso tão vertical
cabelos amarelo ouro
seu olhar tão natural

beijo tão desinibido
fala como um ser normal
poesia de um menino
corpo de febre total

salvo os dias que me esqueço
vem você em meu quintal
e saúda minhas dores
me salvando desse mal

um abraço e seu peso
que se encaixam sobre mim
suas dobras em meu corpo
suas flores no jardim

não a amo e não mereço
seu amor que me enfeita
mas recebo com apresso
se você quer que eu receba

fique e deite em meu colo
suas bobagens são uma prece
que ajudam o meu sono
enquanto você adormece.

mais do mesmo

asas que não voam pra nenhum lugar
olhar amargo sobre a vida passando
os trens e os trilhos vão descarrilar

sono tão cansado que não chega nunca
luzes e outros toques vem me alertar
febre é a alegria que o tempo consome
todo dia é insônia aqui nesse lugar

finjo poesia e faço ser bonito
essa dor aguda a me acompanhar
tampo meus ouvidos, dou adeus às musicas
vou considerando desconsiderar…

rimas tão manjadas, frases tão caladas
essa sensação de nada ser real
luz por toda a casa, tenho um medo agudo
fito minha sombra em qualquer mural

e o Sol amanhece claro feito prece
raios iluminam todo o meu quintal
outra vez me acorda e penso comigo
como pode o dia ser tão viceral?

rubro, rosa, mestre, calor que padece
flores de um caminho artificial
ergo a cabeça e ouço a natureza
pássaros cantando para mais um caos.

da velha casa

Se eu sentirei falta daqui?
É possível – penso eu.
Quem não sentiria, por mais distante
Falta do que te completou?

Olho pra essa casa enorme
E nada do que vejo é meu
Somente o vazio – que atento
Me fita olho a olho, e contempla.

Observo o silêncio como quem observa a uma criança;
E essa criança cresce com a rapidez de um cometa
Os latidos vindos da rua e os motores
Nada nunca me fará falta, pudera.

Então, o que deixo são migalhas
Nada aconteceu aqui, não fui de ninguém
Não há memórias a carregar
Os móveis irão como vieram; leves.

Mas é sempre ruim partir, ir embora
Há sempre o peso da leveza que fica
Virar a página e ler o próximo capítulo, que audácia!
Há de se concentrar no futuro com elegância…

Não é mera superstição ou fraqueza
Mas sempre me parece estranho voar
Aquele medo, o frio na barriga, a dormência
Que só se acalmam perto da hora de chegar.

E, confesso, o amanhã é perplexo!

ruídos

suas curvas e dobras
sobras e restos
o corpo não falha a memória
os olhos são dois objetos

que capturam cada segundo
de ausência e de fadiga
de vontade que o sonho traga
de esperança por outra vida

o cheiro, o cabelo
as mãos roídas nos dedos
o gosto da boca e do beijo
o hálito quente no espelho

suas cores tom de madeira
os olhos tom de luar
as luzes em sua pele
o riso a me encantar

saudade que já não me fere
que se tranformou em prazer
sonhar acordada e sorrindo
rezando para te ver

meu corpo, impecável palácio
foi teu e pra sempre será
não há quem desvende o mistério
que ainda me faz te esperar

sigilo da noite, floresta
núvens encobrem o mar
espreito a memória escaça
onde ainda é seu lugar

a morte me chega e me deixa
todos os dias ao deitar
nesta cama onde mora o vazio
e seu corpo que não vai voltar.

ao som de pink floyd

o céu, ruídos e cigarros light
cerveja quente e alguns insights
escrevo e bebo tudo o que eu sinto
e vou fingindo que eu nunca minto

acendo vícios que vão me matar
chorando as mágoas vou de bar em bar
nos meus cadernos ponho frases feitas
e não me julgo se esqueço a letra

canções didáticas prum velho amor
cansaço agudo para o que restou
e na parede um retrato antigo
dizendo olá para o meu inimigo

cidade aberta para o que sou eu
e nem sei mais se o que eu sei é meu
vou deslizando um sorriso quente
fingindo ser igual toda essa gente